segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Pássaro?





Não nasceu pássaro.

Mas quis voar!
E enquanto os outros jogavam ao berlinde
Ele contava asas nas nuvens
E estou em crer que acreditava
Que a alvorada rompia vermelha e feroz no coração dos pássaros
E o sol se erguia com o primeiro piar.
Não lhe cresceram asas.
Mas quis voar!
E enquanto os outros aprendiam a soletrar e a cantar poemas,
Ele rimava alfazemas e colibris,
Marés com gaivotas
E corvos com a noite escura.
Não tinha bico, nem garras.
Penas? Cresceram-lhe no coração, não nos braços.
Mas quis voar!
E enquanto os outros mediam Q.I.’s
E médias para a universidade,
Ele alojava ventos no coração,
os ventos onde viviam os pássaros.
Madrugadas também.
As dos pássaros.
Passava os dias na falésia,
Os olhos no abismo das asas,
Não das pedras,
Onde um e outro voo lhe entrava na alma como um desafio.
À noite passava fome,
Escorraçado pelos semelhantes por se parecer com as aves.
Um dia, ao crepúsculo sobre o abismo,
Abriu os braços,
(como se fossem asas)
Para voltar para o ninho como os demais pássaros.
Passou um, rasando-lhe a testa,
E eis logo outro que o despenteou, convidando:
- Vem daí, irmão!
E ele foi. E voou!
Não tinha asas, não.
Não sabia.

Acolheu-o o mar, como se ele fora gaivota.
Todas as asas o vieram velar nessa noite.
Até os anjos que nunca acreditaram que pudesse voar.
A alvorada rompeu, vermelha e feroz, no coração dos pássaros
E o sol despertou com o primeiro piar.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Recomeço




















As finas mãos dos deuses poisaram pesadas
Sobre a minha cabeça.
Não me vieram fadar nem dar poderes especiais.
Cuspiram depois na minha face,
E com a sua saliva sagrada lavaram o medo.
Agora morro e renasço,
E em cada passagem pela minha escuridão,
Realinho o trilho e recomeço.
Alguns conhecem o caminho mas continuam perdidos.
Eu conheço a perdição, mas sigo o meu caminho.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Revolta


Os cravos esquecidos no chão
São a esperança deste povo que fenece,
E na boca das espingardas
O grito de raiva que ensurdece.
Na urgência da justiça,
Só murmúrios de fome e dor.
Acordem, flores pisadas!
Unam a voz às espingardas,
num único e forte clamor.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Lua Azul (I)



Lua,
Minha feiticeira nua,
Quem te mandou azular?
Embriagaste-te de céu,
Ou bebeste a cor do mar?

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Saudade



Quem me dera de novo
Aquele campo de urze e rosmaninho
Onde fui pastora e vagabunda,
Onde o meu pai dizia
Que havia mais verde nas pessoas.
E havia!

Quem me dera de novo
Encher os pulmões com os montes
E entre fontes e rebanhos
Enterrar os pés no húmus frio e fértil,
Manchar de amoras o meu vestido branco
E toldar o juízo com medronhos.

Quem me dera de novo
Banhar-me nua e inteira
Debaixo de inesperadas cascatas
Que saltavam penhascos delirantes
E vinham cantando,
Frescas e límpidas,
Pelas pedras abaixo.
Recantos que só as ninfas guardavam,
Onde o meu pai dizia,
Que à noite, nas fragas,
A água roubava os raios do luar,
Para brilhar no dia em filigrana de prata.
E brilhava!

Guardo nos olhos o verde e a prata
Que a saudade de meu pai teceu.
Era saudade!
Quem me dera de novo
Nos dias sombrios de tempestade
Em que a eternidade cabia inteira
No rugir do céu,
E havia promessas de vida
No cheiro da terra molhada.

Quem me dera de novo
O tempo em que a voz de meu pai se ouvia
E dizia coisas que nunca esqueci.
Nunca esqueci!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Dizer-te numa frase (15 anos)

















Dizer-te numa frase seria deixar-te a meio.

Porque tu não és somente o meu sangue, o meu orgulho,

És um pedaço de alma que se soltou de mim em vendaval

E na luz dos teus olhos vejo a minha eternidade.




à B.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Sereia, Serei a...



São búzios verdes o que trazes nos cabelos?
Que cantas tu, sereia, em voz de azul enlouquecido
Que tão feliz fica a maré, só de te ouvir?
Cora-se o sol, incendiando longe o longe do teu mar.
E quando te vais com as ondas
Nada mais fica senão o teu perfume de algas e sal
E o manto crú de silêncio que a noite veste
e mergulha em mim.

Ser eu a fera





Ai quem me dera
ser eu a oculta fera
no escuro do teu olhar!
Ai quem me dera
o sonho breve, a quimera,
de eu em ti te encantar!


Asa eterna




Agora vou virar pássaro
E serei verde breve no longo azul,
Suspensa vida na lonjura sem fim.
Viagem sobre a espuma do sonho
Que a minha asa eternizou.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Rubras rosas




Foi o meu coração sangrando
que avermelhou estas rosas,
ou elas somente enrubesceram
com o teu beijo de despedida?

Rosmaninho no olhar





Devagar, devagarinho
eu divago no caminho
perdida no rosmaninho
que floresce no teu olhar.
No veludo dos teus passos
e neste nó feito de abraços,
eu deixo o amor chegar.

Amor na mesa de autópsia


Foto: Olhosgóticos


Em cima desta mesa expus a nudez do meu amor,
como um cadáver indefeso à espera da autópsia,
sem segredos nem esperança fiquei,
senão aguardando que chegasses,
me visses e me amasses.
Escureceu a vida e o vento passou,
levando consigo migalhas de mim,
tudo o que restou quando eu anoiteci.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Libera me



de trinity89luar



Com a ponta de teus dedos frios me enredaste.
Nesta Lua de silêncio, estéril e sombria, me exilaste.

Libera me.

Liberta-me do emaranhado de emoções em que me prendeste,
teia de orvalho densa e agreste que te veste o coração.

Libera me.


Anjo caído na sombra, que a ira de Deus petrificou,
espectro que o próprio inferno assombra,
e é tão somente o reflexo de quem eu sou.

Libera me.

Deixa-me ir, com os olhos vestidos de chuva,
partir no vento cinza que a alma escurece.

Libera me

Liberta-me da morte escura
que em teus olhos transparece.

Libera me

Porque enquanto me esquecias, Anjo perverso e ruim,
troquei minha alma com a tua no minguar desta Lua.

Agora, sigo em ti e tu em mim.



Nada do que escrevo te contém




















Nada do que escrevo te contém.
Nenhuma rima, nem metáfora,
nenhum ponto final te detém.
Porque tu és maior do que a palavra,
que o gesto ou a intenção.
Tu és a própria emoção,
alma ao rubro, vestida de coração.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Chuva





Cai,
cai,
chuva,
cai.

Pingo
a
pingo
cai
a
chuva.

Cai a chuva sobre a flor.

Gota
a
gota
a
flor
curva.

Está chorando por amor...

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Beijo de chuva à chuva




Pediste-me um beijo de chuva
e eu à chuva to mandei
e o que a chuva murmurou
a ninguém revelarei.

Pediste-me um beijo à chuva
e um beijo de chuva te dei,
outro com o vento voltou,
no coração o guardarei.

A Malvada




Deixei aberta a janela para o amor chegar.
Não, a porta não abri.
Porque o amor deve ser ágil e saltar obstáculos,
ter a vontade de chegar aqui,
ignorar vaticínios dos oráculos
e saber qual a janela por onde entrar.
Eis senão quando espessas e negras asas
me envolvem como brasas,
num abraço da solidão.
A intrusa chegou em minha casa voando,
e a mim me fez reclusa da escuridão.
Instalou-se na minha cama,
vestiu o meu melhor pijama,
meteu o nariz em tudo o que é meu
e à chama da lareira se estendeu.
Ronrona a meus pés como um felino,
confiante de que aceito este destino
e deixarei que me seque o coração.
Penteia-me os cabelos com desvelos
e dedos descarnados de paixão.
Gira à minha volta como traça na luz,
à solta no meu espaço,
entre um e outro abraço,
cuidando que é assim que me seduz.
Segue-me mansa e doce,
insinua-se como vampiro,
bem juntinho ao meu pescoço.
Mal sabe ela que eu conspiro,
que intento a rebelião
e já transpiro de irritação.
E neste á-vontade que revela
como se estivesse no seu lar,
a malvada fechou-me a janela,
talvez com receio de se constipar.
Vou corrê-la á vassourada
para que saiba como é indesejada.
Talvez usar um insecticida em spray
à laia de despedida,
pois que mais fazer não sei,
p'ra enxotar esta bandida.
Para não ser acusada de maltratar a solidão
(quem sentiria a sua falta, afinal?)
vou deitar-lhe Prozac no vinho
que bebe do meu cristal,
arrastá-la pelo colarinho
e pendurá-la no estendal.
Cá por mim, nesta noite tão fria,
pode bem morrer de pneumonia,
que eu só quero ver-me livre dela
e voltar a abrir a janela.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

As tulipas de minha mãe





Minha mãe gostava de tulipas.
Amarelas.
Ou talvez brancas.
São tristes as tulipas,
como era a minha mãe.
Corolas vergadas
pela breve vida,
tão pesada.
Porque choram as tulipas
como chorava a minha mãe?

E dizem que se fez ao mar...





Acreditei num sonho.
E um trono criei
para um rei.
Mas o meu próprio trono eu usurpei.

Ele chegou
sem corcéis nem paladinos,
somente uns olhos peregrinos
em busca de amor.

Nada pediu. Ousou.
Nada pediu. Conquistou.
Nada pediu. Tomou.

Mas não era meu esse rei
e o meu próprio trono eu usurpei.

Efémero esse reinado
em que cri e que criei.
Para um rei.

Nada lhe pedi. Tudo lhe ofereci.

Como chegou, partiu.
Dizem que se fez ao mar...
Levou-me o coração
na palma da sua mão.
Ahoy, ahoy, meu rei
detém o teu navio
que o meu pobre coração
não aprendeu a navegar.

Como chegou, partiu.
Nada me deixou ficar
senão estas mãos vazias,
eternamente frias.
E nunca mais ninguém o viu.

Dizem que se fez ao mar...

Nos olhos da minha filha





Nos olhos da minha filha
saltam meninas à corda
num campo de malmequeres.
E é tamanha a algazarra,
gargalhadas e euforia,
que as meninas dos seus olhos se espantam
e é nelas que despontam os sóis
que regulam o universo.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Círculo de fogo


Slice



Os deuses me lançaram no círculo de fogo
para me devassarem o mistério de ser.

Onde nasce o fogo,
eu ponho a vida,
e no espanto dos deuses menores e humanizados
o meu suícídio é um orgasmo de chamas
num sabbath de oração.

Morri ontem
e hoje eu morro,
e no jogo dos deuses-homens
regresso eterna, inteira e mulher
porque onde nasce a vida
eu ponho o fogo.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Alma gémea


Estejamos em paz (Beatriz Prestes)



Quando o céu ainda não tinha nome
e a Terra era apenas uma promessa,
chamei por ti da alvorada das estrelas.

Ainda os deuses dormiam no limbo
e a sua vontade não rasgava universos,
chamei por ti na madrugada dos tempos.

A voz se me perdeu nos ventos de Samsara
e na alma eterna tatuei o teu nome,
porque mesmo no silêncio mortal chamarei por ti.

Na tua sombra


osombrablog


Eis que tu chegas
e o silêncio abafa o mundo.
E é sob a tua sombra que o
meu espaço mingua.
Tudo tu preenches,
tudo tu és,
de repente,
tingindo de amor
o rubro coração.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Bene Ha 'Elohim


ponteoculta


Filhos da rebelião da luz,
de olhos postos no abismo,
centelhas de fogo que tudo alcançam,
que implodem e se consomem num só coração.


A queda das asas precipitou-vos na terra fria,
no ventre mais escuro.
Dos rostos de luz sobraram sombras vigilantes
que se escondem entre a obra de Elohim.


Força feroz e invasora,
essência dispersa da centelha divina,
criadores guerreiros ou magos celestes,
semente disseminada em segredo,
poeira cósmica dos Nephilim ancentrais,
filhos das estrelas que somos nós.

Quando eu escrevia poemas


colegioamparo


Enquanto acreditei que existias eu escrevia poemas,
aos teus olhos predadores, à tua boca invasora.
Tu eras o poema e eu respirava-te pelas palavras que escrevia.
Nos contornos do teu corpo desenhei metáforas.
A poesia nascia-te no ventre e escorria fluida e poderosa
dos teus lábios, onde eu, ávida, colhia cada rima.
E afinal tu não existes e eu não sei escrever.
A solidão é uma folha em branco.
A tua inexistência é dislexia onde as sílabas troçam de nós
e as palavras não fazem sentido.
A realidade sem ti é tão árida como a tua face em cada manhã.
E este vazio é sinistro, perverso e inútil,
como o ponto final onde me suspendo, louca à beira do abismo.
E afinal tu não existes e nunca leste os meus poemas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

De mãos abertas


Viningsight


Aprendi a manter as mãos abertas,
palmas viradas para o céu,
para libertar o que não é meu
e apenas em mim pousou.
Para aceitar o que para mim vier
e em mim, porque meu,
quiser ficar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

O meu anjo desasado




Eu nasci quando Deus dormia
e quem me fadou foi um anjo coxo e desasado
que só sabia cantar.
Não me assistiram fadas,
nem bruxos me enfeitiçaram.
Nem um só parou para me olhar.
Caí na vida, como pena
das asas que o meu anjo não tem.
Nunca Deus me viu,
porque dormia,
e o que nasce no sono do Deus não existe.
Continuo com esse anjo desasado
a cantar no meu ouvido,
às vezes desafinado.
Sinto-me capaz de caminhar
embalada nas suas notas,
ora harmónicas, ora dissonantes.
Fica sempre á minha esquerda,
inclinado,
substituindo o vazio de outro abraço.
De vez em quando ri-se,
o desastrado,
de mim e do mundo.
Até do Deus que ainda dorme.
Recolhe as minhas penas,
em segredo,
uma por uma,
apanha-as do chão.
Com elas, um dia voltará a ganhar asas,
mas será sempre o meu anjo coxo e trapalhão.
Seguimos os dois,
como bêbados amparados na tontura,
embriagados por esta vida
que nos aconteceu quando Deus dormia.
Vamos como água
por entre pedras e limos,
como vento correndo na invernia dos salgueiros,
ou vagabundos nas ruas de todas as portas fechadas.
Quem sabe, vamos como lágrimas presas
nos olhos de amantes abandonados.

Desasados vamos os dois,
em dueto,
sonho do Deus que ainda dorme.

Nada mais




E do amor
nada mais resta
senão um dia de Janeiro
frio e surrealista
em que acreditei
que vivia.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A luz do meu dia


emphaticperspectives


Deixa-me ver o dia
com os teus olhos,
beber na fonte da tua boca,
colher do teu corpo
a líbido silenciosa.
Deixa-me as tuas mãos
fortes e sábias
e o silêncio rude
dos teus passos.
Deixa-me a tua
sombra esquiva
e a embriaguez soberba
com que bebes o mundo.
Deixa-me ver com
teus olhos,
para perceber
se já anoiteceu
ou se foste tu quem
roubou a luz do meu dia.

Catedrais


Reims


São teus olhos catedrais
onde me converti.

Teu coração o mosteiro
onde me recolhi.

O poema que entra pelos olhos do amado


negativodigital


Deixa que as minhas palavras te firam os olhos
como a claridade dum punhal de luz,
que o meu poema te espante e que
toda eu possa entrar em ti
e morrer devagarinho
no teu coração.

De mim nada



eptafios


De mim
nada tens
que saber
senão quem sou.
Que te interessa
perceber
para onde vou,
se tu és,
joio daninho
preso no chão.

O meu caminho é solidão.

Seguir-me
não podes.
Perdeste o alento
de saber caminhar.
Tenho por
companhias
a nudez do luar,
o assombro do vento
e as mãos vazias.

A vida numa parede


Spiderpic


Escorrem lembranças na parede da minha sala,
onde luzem as fotos dos já-idos.
A luz dos seus olhos pereceu
mas a alma lhes ficou naqueles retratos,
para iluminar as noites perenes de saudade.
E há entre eles uma moldura vazia
que me há-de acolher quando me for
e a alma se me tornar noutro luzeiro
na parede duma outra sala.

Reencontro


renyds.blogspot


Arde um incenso de bom augúrio na minha porta de entrada.
No ar, o perfume do murmúrio das fadas,
um luzeiro de estrelas guarda o caminho,
de urze e rosmaninho cobri a tua estrada.
A mim me vesti de branco linho e de espera,
e espero com a alma alvoroçada
por ventos de Primavera.
Vem, que é já noite na vida,
E de noite há espantos e medos,
há olhos que fadam os caminheiros,
E os invisíveis dedos da negridão
catam segredos do coração.
Para ti guardei o mágico ritual
da sagração dos amantes,
o reencontro final de almas gémeas errantes.
Cingir-te-ei num estreito e longo abraço.
O corpo te untarei de óleos perfumados
para mitigar-te o cansaço
de séculos e séculos passados.
Para beber, um cálice de sidra quente com canela,
e os olhos perdidos nos olhos à luz duma vela,
duma só vela.
Calarei os gritos de predadores nocturnos,
ecos soturnos da escuridão,
Por ti, mandarei calar o próprio mundo,
comunhão de carne e espírito em silêncio profundo.
Com mãos frescas na tua fronte cansada,
velarei por ti até vir a madrugada,
para que se te cerrem os olhos em serenidade.
Vem, que é hora de despirmos a saudade,
e à luz desta vela,
e só desta vela,
incendiarmos a nossa eternidade.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Os deuses moram na terra


Lua Cósmica


A ti,
que lanças as preces para o alto
e ergues as mãos para o céu,
te digo
que os deuses moram na terra
escondidos de quem os esqueceu.

Não, mortos não estão.
os deuses não caiem no céu,
nem apodrecem na terra.
Quando morrem,
jazem no coração.

Por isso,
reza para o chão,
que cada pégada
que deixas impressa
é uma oração.

Crescente


Portal da Luz


Tenho um crescente no peito que me vem  do coração.
Estigma  de prata  ardente  da Lua  em  noite
de  iniciação. A Mãe  antiga   habita 
em  mim, água,  luz, e emoção.
Abre-me   os   olhos,
oh   Mãe,
deusa
da
liberdade,
deixa-me   banhar
nesse  rio  em que  se
espelha  a  verdade.  Afasta
de  mim  o  cálice  das  trevas  e o 
fogo da ilusão, dá-me  a força  das  ervas
daninhas  que  insistem  em  viver  rente  ao  chão.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Rio selvagem



A minha vida é um rio
selvagem
que se revoltou
contra as margens.
Águas turvas
lamacentas que
o tempo contaminou.
Escavou fundo no leito
perdeu-se nas entranhas
do mundo.
Voltou à luz
acendrado
sem mágoa nem pecado
derramado em
praias estranhas.
Procura foz que o acolha
e o deixe desaguar.
O meu rio tem vida incerta
e insiste na descoberta.
Irá acabar noutro rio
ou na solidão do mar?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cumpro o meu caminho


Imagem de Your Chosen Path


Com a alma vergada pelos sonhos
que a vida prometeu mas não cumpriu,
cumpro eu o meu caminho,
arrancada pela raiz
pela mão dum deus
que o jardim livrou de ervas daninhas.

Outonei-me com as folhas vermelhas
das árvores nuas e
vou com o vento doido,
etérea e fugaz,
sigo no choro da chuva.

Da ponta dos meus dedos frios
nasce mais um sonho
e outro
e outro.
Abandono-os à beira da estrada,
imperfeitos,
para quem vier atrás
e acredite.

Sigo só
com a minha noite.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Boneca de trapos




A boneca de trapos ama as mãos que a manipulam.
Mesmo quando lhe arrancam o coração de algodão
e lhe revolvem as entranhas de farrapos,
mantém o sorriso rasgado,
desenhado a tinta tosca num rosto de serapilheira.

A boneca de trapos não tem mais ninguém para amar
senão quem a faz sofrer.
E quando as mãos cruéis
a lançam em fúria na fogueira,
aquele sorriso é o último a arder.

No voo esparso das cinzas que se erguem do lar,
cumpre assim o seu último ritual.
Levada pelo vento das sílfides
para arrebanhar nuvens e céu,
a boneca de trapos é imortal.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Genesis



O diabo zangou-se com Deus,
quis engolir a luz,
mas engasgou-se e cuspiu-a em pedaços.

Nasceram as estrelas.

(Ou seriam os teus olhos?)

A divisão das almas




Em quantas partes se divide a alma?

Dizem uns sábios que antes de nascer
celebrámos um pacto com Deus
e que a alma nos foi partida
em dois eus pelos mundos dividida,
sem uma da outra saber.

Guardam os meus lábios a marca do dedo
do anjo que me impôs silêncio e
a alma em duas me talhou.
Mas o coração lembrou
e descobriu a traição.

É por isso que vagueio à aventura na vida
em busca do que é meu,
a parte que me foi tirada e que me procura.
Diz-me agora, anjo ateu:
E o coração, tem divisão?

Pianos




Vinte dedos.
Dois pianos.
Feitos de pele e desejo.
Harmonia.
Duas bocas.
Um beijo e
a mesma melodia.

Em ti vou aprender solfejo,
piano que quero dedilhar.
Um dia...
Ah, quem sabe, um dia,
aprenderás a amar.

Luto




Não há maior luto
que a ausência de quem
se afastou em vida
mas teima em ficar no coração.

Incerteza




Tua pele, madrugada.
Minha pele, crepúsculo.

Teu corpo o princípio dum final derradeiro.

E eu somente o fim dum incerto começo.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Abismo

ideiasdoatlante


Porque entre os teus lábios profanos
nasce a loucura que me devassa a vontade,
eis os labirintos de volúpia onde me perco
em busca de promessas de amor.

Mas nesse abismo sensual,
colho o teu silêncio também,
porque as palavras que nunca me dirás
guardam os segredos que eu quero ouvir.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

A minha casa



















O poema é a minha casa,
onde me deito nua sobre
o beijo das palavras.

Desejo

























O desejo
é uma coisa mecânica
que atropela as madrugadas.

Luxúria tirânica
que me rasga inteira
com pégadas
de fogo.

Castigo de Eros
que em fúria
me incendeia
quando sonho contigo.

A urdidura do sonho

















Sonha
que sonhar é correr
à frente da vida,
ver mais além,
com olhos maravilhados de vidente.

Sonha
e deixa para trás
as conjecturas dos filósofos
para quem tudo é apenas
desejo e dúvida
ou uma busca infinita da Psique.
Freud e Jung não tiveram
ensejo de sonhar
e correram somente atrás da vida.

Sonha
que o sonho não te desilude
nem te atira ao chão,
pairarás em liberdade
sobre o caos e a escuridão.
E se caires dum sonho,
tombarás nas nuvens.

Sonha
que a vida pode não ser
um sonho
mas é a urdidura do sonho
que ilumina a vida
e perdura no teu anoitecer.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Hinc illa lacrimae

























Como não quereis que chore
se o mar me invade os olhos,
me corre nas veias
e transborda nas marés da alma?

Á alma lusa não lhe corre sangue nas veias
mas água salgada.

sábado, 4 de junho de 2011

Importa celebrar o vazio





















É no teu peito vazio que me recolho.
As tuas mãos vazias preencho-as com as minhas.
No caminho incerto e solitário do teu olhar
encontrarás a companhia dos meus olhos.

E à medida que a dor for escavando
um buraco inútil no teu coração,
semeando o vazio e o silêncio,
virei de seguida enchê-lo
de risos em cascata,
de cânticos alegres
de luzes de todas as estrelas,
murmúrios de luas,
e da alegria dum bater de asas
na frescura das manhãs,
da inconsciência feliz duma bebedeira de medronhos,
de juras de amor.

E enquanto tu aprendes
na lição da partida,
ensinar-te-ei o valor da chegada.
Porque o que importa é celebrar o vazio,
não pelo que se foi,
mas pelo que se pode vir a ser.
E preencher.

Para que dentro do teu vazio
exista um pouco de mim,
um toque,
uma pegada,
uma impressão digital,
um olhar,
um murmúrio,
um desejo.
Um beijo.