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sexta-feira, 9 de março de 2012

Círculo de fogo


Slice



Os deuses me lançaram no círculo de fogo
para me devassarem o mistério de ser.

Onde nasce o fogo,
eu ponho a vida,
e no espanto dos deuses menores e humanizados
o meu suícídio é um orgasmo de chamas
num sabbath de oração.

Morri ontem
e hoje eu morro,
e no jogo dos deuses-homens
regresso eterna, inteira e mulher
porque onde nasce a vida
eu ponho o fogo.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

De mãos abertas


Viningsight


Aprendi a manter as mãos abertas,
palmas viradas para o céu,
para libertar o que não é meu
e apenas em mim pousou.
Para aceitar o que para mim vier
e em mim, porque meu,
quiser ficar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Rio selvagem



A minha vida é um rio
selvagem
que se revoltou
contra as margens.
Águas turvas
lamacentas que
o tempo contaminou.
Escavou fundo no leito
perdeu-se nas entranhas
do mundo.
Voltou à luz
acendrado
sem mágoa nem pecado
derramado em
praias estranhas.
Procura foz que o acolha
e o deixe desaguar.
O meu rio tem vida incerta
e insiste na descoberta.
Irá acabar noutro rio
ou na solidão do mar?

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Cumpro o meu caminho


Imagem de Your Chosen Path


Com a alma vergada pelos sonhos
que a vida prometeu mas não cumpriu,
cumpro eu o meu caminho,
arrancada pela raiz
pela mão dum deus
que o jardim livrou de ervas daninhas.

Outonei-me com as folhas vermelhas
das árvores nuas e
vou com o vento doido,
etérea e fugaz,
sigo no choro da chuva.

Da ponta dos meus dedos frios
nasce mais um sonho
e outro
e outro.
Abandono-os à beira da estrada,
imperfeitos,
para quem vier atrás
e acredite.

Sigo só
com a minha noite.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Boneca de trapos




A boneca de trapos ama as mãos que a manipulam.
Mesmo quando lhe arrancam o coração de algodão
e lhe revolvem as entranhas de farrapos,
mantém o sorriso rasgado,
desenhado a tinta tosca num rosto de serapilheira.

A boneca de trapos não tem mais ninguém para amar
senão quem a faz sofrer.
E quando as mãos cruéis
a lançam em fúria na fogueira,
aquele sorriso é o último a arder.

No voo esparso das cinzas que se erguem do lar,
cumpre assim o seu último ritual.
Levada pelo vento das sílfides
para arrebanhar nuvens e céu,
a boneca de trapos é imortal.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Hinc illa lacrimae

























Como não quereis que chore
se o mar me invade os olhos,
me corre nas veias
e transborda nas marés da alma?

Á alma lusa não lhe corre sangue nas veias
mas água salgada.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Arúspice
























Athame e Bolline
Vassoura
Bastao e
Tesoura.
Teixo, freixo
E Manjericão,
Artemísia, Salgueiro
E avelaneira.

Eu fui feiticeira,
Filha da Lua,
Vestida de céu.
Sem mágoa ou pecado
Ardi na fogueira
Na noite mais nua
Envolta no breu
Do tempo passado.

E no Livro das sombras
Que hei-de escrever
Erguida das cinzas
Da água, da terra e do ar,
No Esbath lunar
Serei a mulher
Que te há-de encantar.

Poções e magia
Chuvas e ventos,
Benção, oração,
Orgia, Alegria
Na feitiçaria,
Na calma e na alma,
Celebração.

Equinócio e solstício
Covent de bem querer
Sabath encantado
Eclipse de paixão.
O meu sacrifício
Há-de trazer
O mago amado
Ao meu coração.

Arúspice negro
Que me rasga as entranhas
E a morte me dá
Em terras tão estranhas
Tão vis e tamanhas
Que anjo será?
Que mal eu te fiz,
Oh bruxo aprendiz?

Asas de morcego, canela e mel,
Brilho das fadas, urzes do chão,
Mandrágora e vinho, pele de cascavel,
Unhas e dentes e pós de dragão,
Tudo juntinho, ardendo na chama,
Tudo fervendo no meu caldeirão.
E um gato preto, pelo sim, pelo não
Velando o feitiço, na minha cama.

Anjo insubmisso, eu quero
Um feitiço bem forte,
Pela água, terra, fogo e o ar,
Pela triste sorte em cada morte.
Te darei a força, ficarei exangue,
E quando nada mais tiver para te dar,
Dar-te-ei a vida, dar-te-ei o sangue.

A alma, não,
Que não é minha para dar.
Veio das estrelas,
P´ra lá do Luar.
Ergue-se o cálice
Abençoado,
O branco feitiço
está consumado.

Reencarnar?
Só para te encontrar.