Minha mãe gostava de tulipas. Amarelas. Ou talvez brancas. São tristes as tulipas, como era a minha mãe. Corolas vergadas pela breve vida, tão pesada. Porque choram as tulipas como chorava a minha mãe?
Deixa-me ver o dia
com os teus olhos,
beber na fonte da tua boca,
colher do teu corpo
a líbido silenciosa.
Deixa-me as tuas mãos
fortes e sábias
e o silêncio rude
dos teus passos.
Deixa-me a tua
sombra esquiva
e a embriaguez soberba
com que bebes o mundo.
Deixa-me ver com
teus olhos,
para perceber
se já anoiteceu
ou se foste tu quem
roubou a luz do meu dia.
Escorrem lembranças na parede da minha sala,
onde luzem as fotos dos já-idos.
A luz dos seus olhos pereceu
mas a alma lhes ficou naqueles retratos,
para iluminar as noites perenes de saudade.
E há entre eles uma moldura vazia
que me há-de acolher quando me for
e a alma se me tornar noutro luzeiro
na parede duma outra sala.
Tenho saudades do tempo em bastava ter saudades p'ra te ver.
Tenho saudades das saudades que sentia.
De que me serve agora ter saudades,
se não são saudades de ti,
mas das saudades que podia?
Não, estas não posso, amor, não as posso ter!
Porque são saudades das saudades que sentia,
e do tempo em que bastava ter saudades, p'ra te ver.